Teresa Damásio é uma das principais vozes portuguesas na defesa do ensino profissional, envolto num preconceito enraizado desde o século passado. Foi escolhida como embaixadora portuguesa da Semana Europeia da Formação Profissional. O DN entrevistou-a.

O25 de Abril trouxe uma revolução em vários campos da sociedade em Portugal e a educação não foi exceção. Após esta data, o ensino técnico-profissional desapareceu, para depois regressar com a lei de bases dos anos de 1980, como uma alternativa para alunos que queriam definir o seu percurso com base na vocação e não nos seus resultados escolares. Contudo, no início do milénio, tudo mudou, com a inclusão deste tipo de ensino nas escolas secundárias – além das escolas profissionais -, onde imperava o modelo liceal. O ensino profissional começou a ser uma alternativa para os alunos com piores resultados e o preconceito intensificou-se.

A luta contra este preconceito é uma das muitas que integram a agenda de Teresa Damásio, 49 anos, administradora de um dos maiores grupos de ensino privado em Portugal, o Grupo Ensinus, e embaixadora portuguesa da Semana Europeia da Formação Profissional, que decorreu no mês passado.

São mais de 60 mil os alunos que atualmente procuram o ensino profissional em Portugal. E a tendência é crescente. O DN esteve à conversa com uma das maiores vozes em defesa deste tipo de ensino no país.
Esteve na Semana Europeia da Formação Profissional [que decorreu entre 14 e 18 de outubro], da qual foi embaixadora, e que envolveu 44 países europeus. O que é que traz deste evento? Como está Portugal em relação aos restantes países?

Portugal está bem, a trilhar um bom caminho. Precisamos de mais empresas a fazer formação profissional, mas estou muito satisfeita com os resultados que temos alcançado ao nível do ensino profissional nas escolas.

Atualmente, são cerca de 70 mil os jovens que frequentam o ensino profissional em Portugal. O número tende a crescer?
O número tende a crescer, claramente, e por diferentes ordens de fatores. O principal é a notoriedade que o ensino profissional tem vindo a ganhar. As pessoas já falam do ensino profissional como uma parte integrante do sistema educativo, já não lhe é dado caráter de excecionalidade. Mas, antigamente, no discurso corrente, as pessoas dividiam os tipos de ensino em ensino regular e ensino profissional, quase como se o ensino profissional fosse irregular, fora do padrão. As famílias não viam com bons olhos que o seu filho fosse para o profissional, por considerarem que não era prestigiante.
Quando um aluno do profissional “ingressa no ensino superior, regra geral, revela melhores resultados do que os outros alunos”
De onde nasce este preconceito?

Da ideia de que o ensino profissional é para os maus alunos. Pensava-se que só ia para este tipo de ensino quem não tinha tido sucesso no científico-humanístico. E não foi para isso que o ensino profissional nasceu. Surgiu como uma necessidade que os Estados encontraram de ter pessoas devidamente qualificadas para profissões. E por isso é que, nos países escandinavos, o profissional tem uma cooperação tão grande com o mundo empresarial. E é cada vez mais visto pela Organização Internacional do Trabalho, pela OCDE e pela UNICEF como uma das melhores formas de qualificação dos jovens no tal futuro incerto, em que não sabemos quais serão as profissões que vão existir. Temos alunos mais felizes e o ensino profissional é promotor do sucesso.

É uma resposta aos alunos que não se reveem no dito “ensino regular”…
Sem dúvida. E os alunos que hoje chegam ao ensino profissional são cada vez mais novos. Neste momento, o aluno sai do 9.º ano de escolaridade e vai automaticamente para a escola profissional. Antes, seguiam para o científico-humanístico e, coitados, muitas vezes tinham de mostrar insucesso para os pais perceberam que não era aquilo que eles queriam. O alunos querem entrar no ensino profissional para começar logo a trabalhar para a sua qualificação. Naturalmente, têm as disciplinas de Português e Matemática, mas têm muitas outras específicas das competências que querem ter, que até pode passar por ir para a universidade, mas vão mais bem preparados.

E isto traz vantagens diretas para quem quer entrar no mercado de trabalho?

Sim, porque um aluno sai daqui com aptidão para estar em empresas, em contexto de trabalho, pronto para saber comunicar com terceiros, para fazer apresentações. E se as empresas detetam um bom aluno no estágio, podem ficar logo com ele. Normalmente, ganham remunerações mais elevadas do que os alunos que saem do científico-humanístico diretamente para o mercado de trabalho. Também quando ingressa no ensino superior, regra geral, revela melhores resultados do que os outros alunos. Porque está mais habituado a exposições orais e porque têm de fazer uma prova de aptidão profissional, que é uma autêntica tese de mestrado.

E as empresas estão abertas a estes currículos?

O preconceito nas empresas já desapareceu há muito tempo, aconteceu muito mais rapidamente do que aconteceu na própria sociedade. Porque a empresa quer os seus trabalhadores qualificados e todas as pessoas devem ser qualificadas, independentemente daquilo que estão a fazer, numa caixa de supermercado ou numa livraria. Melhora não só a qualidade como a dignidade do trabalho. E, naturalmente, a produtividade dessa empresa e o crescimento económico do país.
“Se eu digo que um aluno tem o direito de escolher, tenho de lhe dar ferramentas para isso, não posso obrigá-lo a pagar por explicações se quiser fazer exames nacionais para ir para o ensino superior.”
Da totalidade de alunos que concluem estudos no ensino profissional, 84% escolhe não seguir caminho para o ensino superior. Mas o governo tem lançado campanhas de forma a incentivar estes alunos a seguir para faculdades e institutos politécnicos. Em 2020, algumas instituições já arrancam com vagas específicas para quem chega do profissional. Mas faz sentido que se estimule este caminho?

Houve alguns jornais que pegaram nisto da forma errada e quase atentatória da dignidade do ensino profissional, porque estas mudanças que o governo quer fazer já deveriam ter sido feitas há muitos anos. E até revelaram algum desconhecimento do panorama internacional. Porque os Estados membros da OCDE têm de ter pelo menos 50% dos alunos qualificados do ensino profissional a ingressar no ensino superior. Noutros países, isto nem sequer é assunto para discussão. Isto é uma forma de encontrar mais mecanismo para que mais alunos ingressem no ensino superior, porque um país precisa de ter a sua população qualificada e a qualificação vê-se pelo ensino superior.

Mas não será um contrassenso com a razão que está na origem do ensino profissional, que era formar jovens para entrarem logo no mercado de trabalho?

Se fizer a pergunta dessa maneira, é óbvio. Mas temos sempre de olhar para o bem maior, que é o país. E enquanto país temos de ter as pessoas qualificadas para progredir, precisamos de ter uma cultura científica enraizada. Isto tem de ser o normal. O que deve deixar de ser anormal é ter os estudantes no ensino profissional.
Só que para estes estudantes do profissional que querem enriquecer a cultura científica e ingressar no superior tem havido aqui um grande fator inibidor nesta possibilidade, que são os exames nacionais. Isto tem que ser mudado…

Tem que mudar. Não se deve facilitar, deve é adequar-se. Porque um aluno do ensino profissional tem matemática, mas não é a mesma que é lecionada nos cursos científico-humanísticos, por isso, não vai estar preparado para o exame nacional. Vivemos num país democrático, onde eu posso escolher ir para onde quero, mas tenho de ter igualdade de oportunidades. Se eu digo que um aluno tem o direito de escolher, tenho de lhe dar ferramentas para isso, não posso obrigá-lo a pagar por explicações se quiser fazer exames nacionais para ir para o ensino superior.

Então, qual deve ser a solução?

Passa por mudar a forma como se leciona as disciplinas de exame nas escolas profissionais. E as escolas têm também de os preparar para os exames.

E a formação profissional é cada vez mais também uma opção para os adultos?

Tem de ser e rem de passar a ser um padrão. Parte do imposto que as empresas pagam para a Segurança Social deveria, em tese, ser canalizado para o financiamento de formação dentro destas empresas. Mas não é isso que acontece. A formação tem de ser algo normal e constante no mercado de trabalho.

Professora Dra. Teresa Do Rosário Damásio, Administradora do Grupo ENSINUS, para o Diário de Notícias.

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